Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Comigo me desavim (sá de miranda, 1485-1558)
relembrando a profa e poetisa muy querida Gê.
Leia Mais…
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Cenas roubadas
(Desviando de um esbarrão)
- Desculpe.
.
- Ei, ei, espera aí... será que podemos começar de novo? Sei que não nos conhecemos mas... eu não quero ser uma formiga. Passamos pela vida esbarrando uns nos outros, sempre no piloto automático, como formigas... Não somos solicitados a fazer nada de verdadeiramente humano:
.
“Pare”, “Siga”, “Ande aqui”, “Dirija ali”.
.
Ações voltadas apenas pra sobrevivência. Toda comunicação servindo exclusivamente para manter ativa a colônia de formigas de um modo eficiente e civilizado:
(com um muxoxo lindo)
.
"Aqui o seu troco, senhor."
"Papel ou plástico?"
"Crédito ou débito?"
"Aceita ketchup?"
.
Não, eu não quero quero um canudo. Quero momentos humanos verdadeiros. Quero ver você. Quero que você me veja. Não quero abrir mão disso. Não quero ser uma formiga, entende?
- Entendo... mas....
(Na vida real, a moça segue e eu também. Haha, só num filme mesmo. Chega o trem. 10:15, pontual como sempre. Ufa! Sinto algo formigando... )
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
Relembrar não é viver
Um prelúdio e um retorno. Já dizia um velho camarada: nada possui tanto valor que não deva ser recomeçado, nada possui tanta riqueza que não precise ser enriquecido. Vamos ver se adianta.
Uma Vida Não é Suficiente Para Desaprender
Por Face Inoculta
Fingir. Como em cada começo do ano. Como se esse ano não fosse ser a mesma repetição do ano anterior. Como se tudo fosse se passar melhor: eu vou estudar mais, os professores serão menos idiotas, minha vida terá um pouco mais de sentido.
Minha vida, como se ela me pertencesse. E o futuro que o esperamos. E, depois, há aquele sentimento estranho: mas o que é que eu estou fazendo aqui?
Ah, eu não sei direito. Disseram-me que eu deveria ir à escola, um dia, e desde então eu vou todos os dias. Logo, virou normal. E a questão continua sem resposta... a única coisa clara, em todo caso, é fazer aquilo que esperam de mim. E nesses momentos de fraqueza, de desespero, nesses momentos nos quais eu não posso mais, o único refúgio que me resta é não mais pensar e obedecer. Fazer o que minha agenda manda, e isso pode fazer bem. Um bem assombrosamente vazio, um conforto incrivelmente oco, uma felicidade infinitamente triste, nos quais, lá dentro, eu me detesto. Eu me detesto ao ver os outros, os adultos, tão satisfeitos e seguros de me verem abandonado a suas esperas. Eu me detesto ao ver os outros, meu amigos, preferirem-me quando eu me adapto aos seus olhares. Eu me detesto ao não conseguir fazer com que eles gostem da minha imagem, e eu me detesto ao gostar de mim quando eu consigo. Eu me detesto ao voltar sempre a isso aqui, quando eu gostaria de estar em outro lugar.
Na verdade, eu me detesto ao me ver viver, e de ter consciência. Eu tenho essa impressão estranha que tudo que eu poderia viver já passou. Em outro lugar. Na televisão por exemplo. Que a escola, a vida inteira, é um clipe da MTV onde eu estou sempre procurando saber como aparecer bem, tentando encontrar o melhor ângulo pras câmeras, pros espelhos, olhando-me atuar na minha própria vida.
Fingir. Como em cada começo do ano. Fazer como se... Eu não posso mais. Aflição por não saber porque eu choro, aflição por não conseguir gritar, aflição por não estar nunca aflito. Nós estamos mortos num mundo que nem nascemos, mortos por não poder habitar um mundo que é só concreto e vitrines, mortos por sermos apenas imagens. Eu não serei mais uma vitrine: eu me quebro para começar a viver. Isso é o início. Se você quebra a sua, NÓS poderemos quebrar outras. Tirar o clipe da MTV de nossas vidas destruindo seu cenário. Desertar, é tornar deserto um lugar que esperam que cheguemos, nossos professores, nossos pais, a polícia, nossos namorados, e antes de tudo, nós mesmos. A dois nós seríamos fortes, e NÓS somos mais que dois. NÓS somos mais numerosos a cada dia, e o concreto, reflexo da nossa miséria, treme para desaparecer. Existem encontros a serem feitos, amizades para se encontrar. Nós temos quase todos um grupo de amigos com quem passamos o tempo, fumamos um, vamos à praia, vemos um filme, saímos a noite... Um grupo para dividir tristes paixões. Um grupo que nos assegura, que nos deixa sozinhos juntos, que nos diverte. Eu estou perdido para me encontrar, aqui onde o que procuramos está em outro lugar.
Na escola eu me sinto como um rato na gaiola. Uma gaiola com suas regras, seus hábitos, suas punições. Seus códigos, seus comportamentos, suas atitudes que sem parar nos contêm. Ou quase. Eu sinto as vezes como faíscas, faíscas de luz no escurecer do nosso cotidiano. Uma solidariedade no roubo, na conspiração, no silêncio que segue uma incitação à denúncia. Que toda a classe se une pra resistir de qualquer forma a um professor quando ele é autoritário, e uma nova felicidade se instala entre nós. Uma exaltação. Falamos sobre isso o dia todo, durante semanas! Se só isso pudesse ser sempre assim... mas é difícil. É difícil prolongar esses momentos de resistência face aos professores que nos ameaçam, que nos reprovam. Tínhamos feito o certo. É difícil porque mesmo nos momentos intensos, nós somos sempre pegos pela nossa solidão para nos assombrar desde que isso acabe.
Quando um professor nos ameaça de não dar aula até que seja denunciado o responsável por alguma infração, é extremamente engraçado ver que ele não pode fazer nada desde que não digamos nada, que ele fica completamente perdido quando continuamos calados. Infelizmente, quase sempre tem um que solta, que colabora. Nós aprendemos. Quase sempre os mesmos, mas as vezes temos surpresas, traições. Isso não pode nunca acontecer. Não mais traidores! Nós deveríamos lhes dar o que merecem, socos no estômago. A fim de que eles aprendam que não são mais do que um professor, ou mesmo um policial. Que eles compreendessem que é por conta de gente como eles que vivemos numa “sociedade de merda”, na qual ninguém liga pros outros se cada um tiver seu dinheiro, sua casa, seu carro zero.
Dizem-me frequentemente que se eu não estou contente eu posso mudar eu mesmo. Porque “minha liberdade começa onde acaba a liberdade do outro”, eu não devo querer mudar nada mais. Eu tentei e isso não funciona. Eu acabei percebendo por que: eliminar a parte de si que detestamos é também destruir tudo aquilo que a alimenta. O mundo da mentira. A ilusão de liberdade. Eu prefiro pensar que minha liberdade começa onde começa a dos outros, e que esse estúpido provérbio só existe para nos lembrar de não “mexer” com ninguém, de “respeitar” o indivíduo, que assim tudo continua no seu lugar.
Não nos incomodemos.
Aqui me volta a cabeça Maio de 68, que eles já tentaram, que nós não podemos mudar mais nada. Que foi só um episódio legal. Mas eu elaborei minha própria ideia; Maio de 68 são milhares de pedras voando contra a polícia, milhares de vitrines quebradas, de barricadas, de carros queimando, de usinas pegando fogo, de amor, a felicidade da revolta. A felicidade de destruir isso que nos apodrece a vida, de se amar mais intensamente e criar espaço a outros mundos. E depois, percebo que nosso curso da história negligenciou um fato essencial: Maios de 68, houve milhares.
Então querem que eu me cuide, porque sou EU que não vou bem, porque os gritos levam ao prisão e as pedras à prisão. Querem que façamos como se fôssemos nós a causa da doença, como se não estivéssemos cercados de desolação. A psiquiatria, toda forma de espiritualidade individual, de organização de caridade, as ONG's, o NPA* e o comércio solidário estão aqui para nos vender a boa consciência, para nos vender a esperança de uma reconciliação. Eu não cairei mais na armadilha desta falácia, onde cada nova imagem da felicidade é a confissão da mentira da imagem anterior.
Eu me sinto mal ao ver meus pais quererem meu bem repetindo só o que esse mundo quer para ele mesmo. É agora que estou triste, e desde sempre, mas eles continuam a falar de uma felicidade que está a vir, a me dizer que encontrarei meu caminho aqui onde tudo parece estar fechado, que foi só um passo mal dado. “Vai dar tudo certo.” Mas parece que o passo mal dado não passa, e que o futuro que eles me falam sempre estará a vir. Se estamos na escola nos falam sem parar de universidade; na universidade nos falam sobre trabalho; no trabalho nos falam da aposentadoria, e depois da aposentadoria preparamos uma morte tranquila que começou desde a escola. Nos ensinam a viver o futuro simples. “O ano que vem você será...”, “daqui a pouco eu serei...” Nossos pais, tristes crianças de suas épocas, não sabem, a maioria, que nos ensinam a sobreviver da melhor maneira que seja. A sobreviver de uma melhor maneira que eles fizeram. Minimizar ao melhor as olheiras, o álcool, os antidepressivos. Ganhar suficientemente dinheiro, ter um bom status, reiterando ao mesmo tempo cinicamente que “o dinheiro não faz a felicidade”. A felicidade, está a nós para descobrimos, na nossa vida dita “privada”, nessa preocupação paliativa que é a construção de si mesmo.
Olhe nossos pais; eles são felizes? Eles são verdadeiramente felizes? Eles não parecem mais carregar um peso – visível nas olheiras – de ter sacrificado a vida a uma certa ordem das coisas? Os venderam essa mesma mentira que querem nos vender hoje com muito mais histeria, histeria que só faz desmascarar essa ilusão:
“Sua vida consistirá em engessar um muro que está desmoronando, mas como se você não soubesse.”
E nós replicamos:
“Nós não queremos suas olheiras, nem mais o seu gesso e suas mentiras. Não, nós não queremos parecer verdadeiramente felizes. Nós largamos nossos trilhos. Nós temos a intuição de que isso que esconde esse muro que já cai em migalhas, acabará em cinzas. Um amigo disse que a característica destrutiva demole o que existe não por amor as ruínas, mas pelo amor dos caminhos que as atravessam.
Nós acreditamos, e nossa força cresce a cada dia.”
segunda-feira, 28 de março de 2011
Sinais de derrota da revolução Líbia
Declaração contra a exclusão aérea por um anarquista líbio
.
Em algumas horas, o Conselho de Segurança da ONU vai determinar o início da exclusão aérea contra a Líbia. A França disse que está preparada para começar o bombardeio a partir de hoje à noite.
.
Condenamos essa resolução internacional, se ela for realizada. E rejeitamos totalmente qualquer intervenção estrangeira na Líbia, seja qual for a forma que tome, especialmente uma intervenção francesa. A França, que vendeu a Qadafi armas no valor de bilhões, armas que hoje ele está usando para explodir Líbios, a mesma França que não interrompeu essas vendas até 3 semanas atrás.
.
Condenamos essa intervenção que vai transformar a Líbia em um verdadeiro inferno, ainda mais do que é agora. Essa intervenção também vai roubar a revolução dos Líbios, uma revolução que já lhes custou milhares de homens e mulheres mortos até agora.
.
Uma intervenção que também vai dividir a resistência Líbia..
.
E mesmo se essas operações tiverem sucesso e Qadafi caia (ou morra) como Saddam Hussein, isso vai significar que fomos libertados por americanos e franceses, e eu posso garantir que eles vão ficar nos “relembrando” disso a cada minuto.
.
Como poderemos tolerar isso depois? Como vamos explicar todas essas mortes às gerações futuras, todos os cadáveres que estarão em todo lugar?
.
Para sermos libertados de Qadafi apenas para virarmos escravos daqueles que lhe deram armas e poder durante todos esses anos de violência autoritária e repressão?
.
Após o primeiro erro – a militarização de uma revolução popular – estamos cometendo agora o nosso segundo erro – o estabelecimento de novas figuras de líderança surgindo dos remanescentes do regime Jamahiriya líbio. E nosso terceiro erro, que vai acontecer inevitavelmente, é o de pedir ajuda aos nossos inimigos. Eu apenas espero que não cheguemos ao quarto: quer dizer, a ocupação e a chegada dos marines.
Sarkozy e a França são nossos inimigos; eles também são inimigos de todo o Terceiro Mundo. Eles não escondem o desprezo que sentem por nós. Sarkozy apenas quer ser reeleito no ano que vem.
.
O homem que organizou o encontro entre Sarkozy e os representantes do conselho nacional interino é nada menos do que Bernard-Henri Lévy, um filósofo charlatão, e para todos que não o conhecem, um ativista sionista francês que concentra todos os seus esforços em apóiar Israel e seus interesses. Nós o vimos na Praça de Tahrir apenas para garantir que a juventude revoltada não entoasse cantos contra Israel.
.
O que pode ser dito enquanto esperamos pelas bombas?
.
Porque as bombas não vão diferenciar entre aqueles que são pró-Qadafi e aqueles que são contra.
.
Bombas colonialistas, como se sabe, tem apenas um objetivo: defender os interesses da indústria bélica. Eles venderam a Qadafi armas no valor de bilhões e agora nós lhes pedimos para destruí-las…e aí nós teremos que comprar novas armas pelo novo governo – trata-se de uma velha, bem conhecida história. Mas existem pessoas que não conseguem aprender a não ser repetindo velhos erros, cometidos tanto tempo atrás.
.
Eu digo isso claramente: esse é um erro estratégico muito grande, e um erro que o povo líbio vai pagar com juros por, talvez, vários anos agora. Mais do que os anos de ditadura de Qadafi e sua família.
.
O homem que organizou o encontro entre Sarkozy e os representantes do conselho nacional interino é nada menos do que Bernard-Henri Lévy, um filósofo charlatão, e para todos que não o conhecem, um ativista sionista francês que concentra todos os seus esforços em apóiar Israel e seus interesses. Nós o vimos na Praça de Tahrir apenas para garantir que a juventude revoltada não entoasse cantos contra Israel.
.
O que pode ser dito enquanto esperamos pelas bombas?
.
Porque as bombas não vão diferenciar entre aqueles que são pró-Qadafi e aqueles que são contra.
.
Bombas colonialistas, como se sabe, tem apenas um objetivo: defender os interesses da indústria bélica. Eles venderam a Qadafi armas no valor de bilhões e agora nós lhes pedimos para destruí-las…e aí nós teremos que comprar novas armas pelo novo governo – trata-se de uma velha, bem conhecida história. Mas existem pessoas que não conseguem aprender a não ser repetindo velhos erros, cometidos tanto tempo atrás.
.
Eu digo isso claramente: esse é um erro estratégico muito grande, e um erro que o povo líbio vai pagar com juros por, talvez, vários anos agora. Mais do que os anos de ditadura de Qadafi e sua família.
.
Eu chamo hoje, e agora, algumas horas antes da destruição da Líbia e antes que ela se torne outra Bagdá, eu chamo todos os Líbios, todos os intelectuais, artistas, estudantes, todos, aqueles que sabem escrever e os que não sabem, todo homem e toda mulher, a rejeitar essa intervenção militar pelo USA, França e Inglaterra, e a repudiar os regimes no Oriente Médio que eles apóiam. Ao mesmo tempo, convoco todos que nos apóiam, os egípcios, tunisianos, franceses e mesmo chineses, todos os povos do mundo, nós pedimos por seu apoio e simpatia.
.
Mas quanto a governos, seja qual for o governo, não pediremos nada além de nos deixarem em paz, de nos deixarem resolver o problema de Qadafi nós mesmos.
.
Saoud Salem
Anarquista Líbio
17 Março de 2011
Leia Mais…
.
Mas quanto a governos, seja qual for o governo, não pediremos nada além de nos deixarem em paz, de nos deixarem resolver o problema de Qadafi nós mesmos.
.
Saoud Salem
Anarquista Líbio
17 Março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Dez Punhaladas na Política
A política é a arte da separação. Onde a vida perdeu a sua plenitude, onde os pensamentos e as acções dos indivíduos foram dissecados, catalogados e encerrados em esferas separadas – aí começa a política. Tendo afastado algumas das actividades dos indivíduos (a discussão, o conflito, a decisão em comum, o acordo) para uma zona que por si mesma pretende governar — certa da sua independência — todas as outras, a política é ao mesmo tempo uma separação entre separações e a administração hierárquica da existência de separações. Deste modo, a política revela-se como uma especialização, forçada a transformar o problema irresolvido da sua função num pressuposto necessário para resolver todos os problemas. Exactamente por esta razão, o papel dos profissionais na política é inquestionável — e tudo o que se pode fazer é substituí-los de tempos a tempos. De cada vez que os subversivos aceitam separar os vários momentos da vida e mudar — partindo dessa separação— as condições existentes, eles tornam-se os melhores aliados da ordem do mundo. Precisamente quando aspira a ser uma espécie de condição prévia da própria vida, a política espalha o seu hálito mortífero por toda a parte.
A política é a arte da representação. Para governar as mutilações infligidas à vida, a política constrange os indivíduos à passividade, à contemplação do espectáculo montado a partir da própria impossibilidade de agir, a partir da delegação irresponsável das próprias decisões. Então, enquanto a abdicação da vontade de se determinar a si mesmo transforma os indivíduos em apêndices da máquina estatal, a política recompõem numa falsa unidade a totalidade dos fragmentos. O poder e a ideologia celebram desta maneira o seu funesto casamento. Se a representação é o que tolhe a capacidade de agir dos indivíduos, dando-lhes em contrapartida a ilusão de serem participantes e não espectadores, esta dimensão do político reaparece sempre onde quer que qualquer organização suplanta o indivíduo e onde qualquer programa os mantém na passividade. Reaparece sempre lá onde uma ideologia une o que na vida é separado.
A política é a arte da mediação. Entre a pretensa totalidade e os indivíduos, e dos indivíduos entre si. Tal como a vontade divina tem necessidade dos seus próprios intérpretes terrestres, assim também a Colectividade tem necessidade dos seus próprios delegados. Tal como na religião não existe relacionamento entre homens mas apenas entre crentes, assim também na política quem se defronta não são os indivíduos mas sim os cidadãos. Os laços de pertença impedem a união porque só na diferença a separação desaparece. A política torna-nos a todos iguais porque na escravidão não existe diversidade — igualdade perante Deus, igualdade perante a lei. Por isso, a política substitui o diálogo real, que recusa a mediação, pela sua ideologia. O racismo é o sentimento de pertença que impede a relação directa entre os indivíduos. Toda a política é uma simulação participativa. Toda a política é racista. Apenas demolindo pela revolta as barreiras de cada um se pode encontrar os outros na sua singularidade. Revolto-me logo somos. Mas se nós somos, adeus revolta.
A política é a arte da impessoalidade. Cada acção é como o instante de uma centelha que escapa da ordem da generalidade. A política é a administração desta ordem. “Que valor tem uma acção face à complexidade do mundo?” Assim argumentam os anestesiados no torpor duplo de um Si[1] que é ninguém e de um Mais tarde que é nunca. A burocracia, criada fiel da política, é o nada administrado para que Ninguém possa agir. Para que ninguém reconheça a sua responsabilidade na irresponsabilidade generalizada. O poder já não diz que tudo está sob controlo, diz pelo contrário: Se nem eu dou conta do recado, imagine-se outro qualquer no meu lugar “. A política democrática está hoje em dia baseada na ideologia catastrófica da emergência (” Ou nós ou o fascismo, ou nós ou o terrorismo, ou nós ou o desconhecido”). A generalidade, mesmo a de oposição, é sempre um acontecimento que não acontece nunca e que apaga todos aqueles que acontecem. A política convida toda gente a participar no espectáculo deste movimento imóvel.
A política é a arte do adiamento. O seu tempo é o futuro, e é por isso que nos aprisiona a todos num presente miserável. Todos juntos, porém amanhã. Aquele que diz ” eu e agora!” arruína, com aquela impaciência que é a exuberância do desejo, a ordem da espera. Espera por um objectivo que escapa da maldição do particular. Espera por um crescimento quantitativo adequado. Espera por resultados mensuráveis. Espera pela morte. A política é a constante tentativa de transformar a aventura em futuro. Mas só se for “eu e agora” quem decide, pode haver um nós que não seja o espaço da renúncia mútua, a mentira que torna cada um no controlador do outro. Aquele que queira agir imediatamente é sempre olhado com suspeição. Se não é um provocador, diz-se, com certeza faz-lhe o jogo. Mas é o instante de uma acção e de um prazer sem amanhã o que nos transporta para a manhã seguinte. Sem os olhos fixos nos ponteiros do relógio.
A política é a arte da acomodação. Sempre à espera de que as condições estejam maduras, acaba-se mais cedo ou mais tarde a formar alianças com os senhores da espera. No fundo, a razão, que é o órgão da dilação e do adiamento, fornece sempre algum bom motivo para se chegar a um acordo, para se minimizar os danos, para se salvar algum detalhe de um todo que se despreza. A razão política tem um olhar aguçado para encontrar alianças. Não são todos iguais, diz. A Rifondazione Comunista não é, com certeza, como essa direita em ascensão e perigosa. (Nas eleições não votamos neles — nós somos abstencionistas — já colaboração em comités cidadãos, em acções de rua, é diferente). Um sistema de saúde público é sempre preferível à assistência privada. Um salário mínimo garantido é sempre preferível ao desemprego. A política é o mundo do mal menor. E submeter-se ao mal menor leva a aceitar, pouco a pouco, o todo do qual apenas se tinha dado preferência a uma parte. Qualquer um que, pelo contrário, não quer nada com este mal menor é um aventureiro. Ou um aristocrata.
A política é a arte da acomodação. Sempre à espera de que as condições estejam maduras, acaba-se mais cedo ou mais tarde a formar alianças com os senhores da espera. No fundo, a razão, que é o órgão da dilação e do adiamento, fornece sempre algum bom motivo para se chegar a um acordo, para se minimizar os danos, para se salvar algum detalhe de um todo que se despreza. A razão política tem um olhar aguçado para encontrar alianças. Não são todos iguais, diz. A Rifondazione Comunista não é, com certeza, como essa direita em ascensão e perigosa. (Nas eleições não votamos neles — nós somos abstencionistas — já colaboração em comités cidadãos, em acções de rua, é diferente). Um sistema de saúde público é sempre preferível à assistência privada. Um salário mínimo garantido é sempre preferível ao desemprego. A política é o mundo do mal menor. E submeter-se ao mal menor leva a aceitar, pouco a pouco, o todo do qual apenas se tinha dado preferência a uma parte. Qualquer um que, pelo contrário, não quer nada com este mal menor é um aventureiro. Ou um aristocrata.
A política é a arte do cálculo. Para que as alianças sejam profícuas, os aliados precisam de conhecer os segredos. O cálculo político é o primeiro segredo. É necessário saber onde se põem os pés. É necessário redigir listas detalhadas de esforços e resultados. E à força de se medir tudo o que se tem acaba-se por se ganhar tudo excepto a vontade de se jogar tudo e de se perder tudo. Assim está-se sempre em si, atento e pronto a pedir a conta. Com o olhar fixo no que o circunda, nunca se esquece a si mesmo. Vigilante como um polícia. Quando o amor de si mesmo se torna excessivo requer oferecer-se. E esta superabundância de vida faz-nos esquecer de nós mesmos, faz-nos perder, na tensão do entusiasmo, a conta. Mas o esquecimento de si é o desejo de um mundo em que valha a pena perder-se, de um mundo que mereça o nosso esquecimento. E é por isto que o mundo está assim, administrado por carcereiros e contabilistas, está destruído — para arranjar espaço para o dispêndio de nós mesmos. A insurreição começa aqui. Superar o cálculo, não pela carência, como recomenda aquele humanitarismo prudente, prudente, mas que acaba sempre por aliar-se ao carrasco, mas sim pelo excesso. Aqui acaba a política.
A política é a arte do controle. Para que a atividade humana não se liberte dos grilhões do dever e do trabalho revelando-se em todo o seu potencial. Para que os trabalhadores não se encontrem como indivíduos e cessem de se deixar explorar. Para que os estudantes não decidam destruir as escolas para que possam escolher como, quando e o que aprender. Para que os familiares não se apaixonem e deixem de ser pequenos servidores de um pequeno estado. Para que as crianças não sejam outra coisa que cópias imperfeitas dos adultos. Para que a distinção entre (anarquistas) bons e (anarquistas) maus não seja apagada. Para que não sejam os indivíduos os que se relacionem mas sim as mercadorias. Para que não se desobedeça à autoridade. Para que, se alguém atacar a estrutura da exploração do estado, outros se apressem a dizer, “isto não é obra de camaradas”. Para que os bancos, os tribunais e os quartéis não vão pelos ares. Em suma, para que a vida não se manifeste.
A política é a arte da recuperação. A maneira mais eficaz de desencorajar qualquer rebelião, qualquer desejo de uma mudança real, é apresentar um homem de estado como subversivo, ou melhor ainda, transformar um subversivo num homem de estado. Nem todos os homens de estado são pagos pelo governo. Há funcionários que não se encontram no parlamento nem sequer nas divisões adjacentes. Antes, frequentam os centros sociais e conhecem razoavelmente as principais teses revolucionárias. Dissertam sobre o potencial libertador da tecnologia; teorizam sobre esferas públicas não-estatais e sobre a superação do sujeito. A realidade — sabem-no bem — é sempre mais complexa do que qualquer acção. Assim, se aspiram a uma teoria total é apenas para a esquecer totalmente na vida quotidiana. O poder precisa deles porque — como eles próprios nos explicam — quando ninguém o critica, o próprio poder se critica a si mesmo.
A política é a arte da repressão. De qualquer um que não separa os momentos da sua vida e quer mudar as condições existentes a partir da totalidade dos seus desejos. De qualquer um que queira incendiar a passividade, a contemplação e a delegação. Daqueles que não se deixam suplantar por qualquer organização ou imobilizar por qualquer programa. De qualquer um que queira relações directas entre os indivíduos e faça da diferença o próprio espaço da igualdade. De qualquer um que não tenha nenhum nós sobre o qual jurar. De qualquer um que perturbe a ordem da espera pois quer insurgir-se imediatamente, e não amanhã ou depois de amanhã. De qualquer um que se dê sem contrapartidas e se esqueça de si por excesso. De qualquer um que defenda os próprios camaradas com amor e determinação. De qualquer um que ofereça aos recuperadores uma só possibilidade: a de desaparecerem. De qualquer um que recuse tomar lugar nas inúmeras hostes de espertalhões e anestesiados. De qualquer um que não queira nem governar nem controlar. De qualquer um que queira transformar o futuro numa fascinante aventura.
[1] Nota do tradutor: Si refere-se simultaneamente: ao eu, deles, dos anestesiados, ou seja, eles próprios; e a sim, que em italiano coincidem numa só palavra.
Retirado e adaptado da Velha Toupeira. Leia Mais…
quarta-feira, 2 de março de 2011
Como ainda me surpreende a poesia.
Na noite
percebe a noite
o que me anoiteço
escuro de vida
turbulência
Escuto estrelas
e nem apaixonado estou.
ou mesmo se sim
não é este o caso
Pois as estrelas
vibrando no palco negro
sinto os pedaços
da outra parte
meu inteiro
Fico impróprio
por querer
cá ser o diferente
Qual diferença faz?
A minha
Dum menos
de onde menos espero.
A menos que já tivesse esperado
demais duma vírgula
E que vírgula
que descrevo
nos versos
e nas coisas que vejo
cá estou
com certeza estou.
AMC
Assinar:
Postagens (Atom)