quarta-feira, 2 de março de 2011

Como ainda me surpreende a poesia.

Na noite

percebe a noite
o que me anoiteço
escuro de vida
turbulência

Escuto estrelas
e nem apaixonado estou.
ou mesmo se sim
não é este o caso

Pois as estrelas
vibrando no palco negro
sinto os pedaços
da outra parte
meu inteiro

Fico impróprio
por querer
cá ser o diferente

Qual diferença faz?

A minha

Dum menos
de onde menos espero.
A menos que já tivesse esperado
demais duma vírgula

E que vírgula
que descrevo
nos versos
e nas coisas que vejo
cá estou
com certeza estou.

AMC

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Da inutilidade do pessimismo (?)

por Jorge Valadas

Consta que o surrealista Louis Scutenaire teria dito um dia, “Pessimistas, mas que esperavam vocês ? ».

Os que, como eu, nasceram depois da segunda guerra mondial, nada esperavamos e muito já vivemos. Um deslumbramento de acontecimentos históricos ! Foi o fim do colonialismo clássico, as revoltas dos anos 1960, o fim dos totalitarismos da Europa do sul (com um luminoso suplemento subversivo neste Portugal hoje tão cinzento), as revoltas da Europa de leste e o desmoronar do capitalismo de Estado, a transformação do capitalismo de Estado chinês num agressivo capitalismo liberal-burocratico a afogar-se num mar de pobreza, a maior crise do capitalismo depois da dos anos 1920…Como se tanto não bastasse, chegam-nos agora as revoluções do mundo arabe contra os sistemas despóticos locais. Que os sábios de serviço recomendavam como sólidos e adaptados a estes povos resignados por natureza…Tudo isto para dizer que, se eu não estou imunisado contra o pessimismo individual, que faz parte da condição humana, sinto-me totalmente estranho às professias do pessimismo histórico.


Estamos de novo no tempo da História. Que esta a ser feita por milhões de anónimos que se cansaram de esperar por chefes providenciais, personalidades, especialistas, programas, partidos e outras bugigangas de feira política. Que tomaram o seu destino em mão própria. Foi assim que os egípcios, que se tinham atribuido a eles próprios a alcunha de « avestruzes adormecidas », derrubaram o muro da resignação. Situação paradoxal que se pode reproduzir em muitos outros lugares onde o povo vai sobrevivendo em estado de coma prolongado. O mar calmo precede sempre a tempestade. Tudo isto provando, uma vez mais, que por todo o lado onde reina a injustiça social o imprevisivel é sempre provável. E é o imprevisivel que abre a porta à História e torna o provável possível.

As revoluções na Tunísia e no Egípto vieram pois atrapalhar a política e os políticos. O governo israelita, o Hamas , o governo palestiniano, a burguesia vermelha de Pekin, os governos europeus e americanos, o palhaço Qaddafi, todos entraram em pânico face ao imprevisível, ao impensável concretisado ; o derrube de ditaduras sanguinárias que constituíam, finalmente, a maior segurança para todos eles. A paz do horror que é a condição do business as usual.


Estas revoluções vieram também desvendar o mistério do islamismo integrista. A sua inesperada baixa de credibilidade neste período crucial de crise do capitalismo. Trata-se de algo de fundamental que estava provavelmente em gestação de há anos a esta parte, que vai obrigar a rever as « verdades científicas» que nos eram servidas sobre estas sociedades. Na Tunísia como no Egípto, os grupos religiosos estiveram ausentes no início dos movimentos, só entraram neles quando outra coisa nao podiam ja fazer. Todos os testemunhos directos o confirmam. Na Tunísia, o essencial da burocracia religiosa estava mesmo comprometida com a ditadura. Se o islão político não desapareceu – e ele será sém duvida um actor importante nos regimes de “salvação nacional” que vão tentar de se instalar para salvar o sistema -, hoje é o modelo turco que aparece como atractivo e viável e não mais o modelo iraniano. O qual, após décadas de prática autoritária , deu há luz uma monstruosa desigualdade social e um capitalismo de Estado dominado pelos mollahs. Ironicamente, são os poderes ocidentais que antes utilizaram o medo do « estremismo islamico » que se agitam hoje para revalorisar estas correntes. E é sem complexos que o chef da polícia Suliman acolhe hoje no palacio do Cairo as vitimas queele próprio torturou ontém. Os movimentos sociais actuais mostram claramente que as correntes religiosas fazem parte da política clássica, e que, como tal, eles perderam muito da sua credibilidade num momento onde a crise capitalista agrava as condições de sobrevivência do povo. E onde o espaço do reformismo, mesmo religioso, desapareceu.


Embora estas sociedades estejam ainda a viver os primeiros balbuciamentos da questão social, não deixa de ser significativo que ela apareça como central na dinâmica dos movimentos. Na Tunísia como no Egípto as revoluções actuais não caíram do céu. Elas foram precedidas por meses e anos de fortes lutas sociais e de greves, brutalmente reprimidas pelo poder político. E foi a importancia da questão social que fez passar para um segundo plano o projecto político dos grupos religiosos. No Egipto, os acontecimentos vão acelerar-se justamente a partir do momento em que a gréve geral começa a generalisar-se, no dia 10 de fevereiro. A mobilisação de dezenas de milhares de operário(a)s do textil de Mahalla (onde a grande revolta de 2008 foi reprimida no sangue) e das industrias de Port-Saïd, o ataque ao comissariado central da polícia de Port-Saïd pelos pobres vindos dos « ashwayet » (bairros da lata), são acontecimentos que exprimem um salto qualitativo do movimento e pesam mais na balança do que as declarações de El-Baradei à CNN. Também na Tunísia foram os proletários das regiões mineiras do sudoeste, de Gafsa, que constituiram o eixo da insurreição, são eles que continuam a manter a pressão e a defender as revendicações de justiça social. Limitando assim os desejos de compromisso da burocracia sindical e dos chefes da esquerda estalinista local, dispostos a partilhar o poder com os precedentes dirigentes. Enfim, esta mistura explosiva de desejo de emancipação social, de aspirações a uma liberdade humana , foi sem dúvida reforçada pela fusão no movimento de dois sectores da juventude, a juventude pobre de sempre e a juventude « educada », empobrecida antes mesmo de poder ser explorada. Fusão da qual nasceu um potente movimento de auto-organisação basista e de espírito igualitário que ninguém teria imaginado como possivel nestas sociedades. Da qual a praça Tahrir do Cairo ficara como símbolo.


A História não é a politica. Ela é o contrário da política e o regresso à política significará necessariamente o regresso à história domesticada. Em momentos como este, em que a História se impõe, a política aparece na sua verdadeira dimensão, insignificante e separada da vida das sociedades e dos indivíduos. Mas o regresso à História é também a negação da economia e dos seus conceitos. Até há poucas semanas o Egípto era apresentado como um caso exemplar do que os economistas chamam sem rir « os países emergentes ». Bastaram duas semanas de revolução para que os 6% de taxa de crescimento perderam-se nos afrontamentos da Praça Tahrir, deixando visíveis os quarenta milhões de pobres (metade da população) que vive com 2 dollars por dia. Adeus sucesso económico…


O tempo do capitalismo é o tempo da política, o tempo da alienação e da morte lenta. Contra este tempo, ao qual nos vamos habituando, só existe um outro tempo. Que é raro e precioso, que nos faz regressar à Vida e à humanidade : o tempo da revolução. Prever o desenrolar futuro das revoluções na Tunísia e no Egípto, no conjunto do mundo arabe, é tarefa improvável. A capacidade do sistema mondial do capitalismo a restabelecer uma ordem nova que perpetue os fundamentos do velho sistema não pode ser posta em dúvida. Mas a dignidade colectiva que foi reapropriada por milhões de explorados e oprimidos neste movimento colectivo único, contém também uma força. Que é dificil de medir, que não pode ser medida na mesma escala que a força dos opressores. Que têm outras potencialidades, animada por um vector revolucionário que é a perca do medo. O que se passou até agora foi já enorme e traz consequências incomensuraveis. Em parte, e na medida em que tais comparações têm algum sentido, os acontecimentos actuais são comparaveis à queda do muro de Berlin. Eles abrem uma nova época. As consequências para o resto do mundo arabe, para todas as sociedades esmagadas pela arrogância da força são impossíveis de calcular. Mas serão enormes, vão alterar as relações de poder e de força entre os Estados e os povos. O burguesia vermelha chinesa, velha conhecedora do governo pela força, bém o sabe e já deu sinais evidentes de inquietação.
 
PS : Três endereços para continuar a acompanhar e a refletir sobre as revoluções na Tunísia e no Egípto. En francês, www.juralibertaire.over-blog.com/ , documentos, testemunhos e reflexões ; em inglês, dois blogs, www.occupiedlondon.org/cairo/, www.arabawy.org/blog/, um blog do Egípto.


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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não temos tempo a perder...

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sábado, 22 de janeiro de 2011

Philip Larkin - This Be The Verse wrote:

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.
But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.
Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Luta de classes na Tunísia

Uma onda massiva de tumultos criados por pessoas comuns contra o governo arrebataram a Tunísia nas últimas três semanas sob um boicote quase absoluto da mídia ocidental. Observamos o que vêem acontecendo e porque isso está sendo mantido fora das nossas televisões.

No dia 18 de Dezembro, a polícia Tunísiana abordou Mohamed Bouazis, um graduando universitário desempregado, e confiscou o carrinho de mão de frutas e vegetais que ele estava vendendo para se sustentar e à sua família. Enfurecido pela injustiça e desesperando de conseguir escapar da destituição e fome prevalecentes na economia empobrecida da Tunísia, cada vez mais assolada pelo aumento dos preços da comida, o jovem homem se incendiou em protesto na frente da prefeitura de Sidi Bouzid, 200km de distância da capital Tunis. O jovem morreu logo depois no hospital.


Enraivecidos pelo incidente, centenas de jovens locais que sofriam da mesma forma do desemprego e da repressão pela polícia e pelo Estado do regime ditatorial Tunisiano se juntaram para protestar contra o acontecido. A polícia local respondeu com gás lacrimogênio e violência. Deste então, tumultos massivos e confrontos violentos com a polícia abalaram o país nas últimas três semanas. Em Kesserine, outra cidade do interior, longe da industrial turística da região litorânea, o número de mortos estimado pelos médicos locais e funcionários de hospital passou de 50 no último fim de semana apenas.


Mas a selvageria da guerra civil que irrompeu entre o povo da Tunísia, desde a juventude desempregada, estudantes escolares e universitários, sindicalistas, artistas, intelectuais e mesmo advogados, contra a camarilha corrupta que se reúne em volta do ditador (em tudo, exceto nome), o Presidente Zine El Abidine Ben Ali, pode muito bem não estar acontecendo até onde as grades de notícia da RTE, BBC e o resto da mídia ocidental se preocupam. Comentadores na Al Jazeera e outros meios de comunicação arábes vem apontado amargamente a hipocrisia da mídia ocidental que mostrou a resistência do movimento verde iraniano à corrupção eleitoral de Ahmedi Nejad nas últimas eleições em todos os jornais noturnos, mas está agora censurando a maior história no mundo Arábe atualmente. Será porque o regime de bem Ali é “um amigo do Ocidente”? O muro de silêncio imposto pela nossa “corajosamente independente e imparcial” mídia é significativo.

Enquanto isso, no mundo Arábe, desde o Egito até a Syria, bloggers e observadores comuns estão tomados por entusiasmo pelo que estão chamando da Intifada Tunisiana. A experiência de ser espremido entre regimes corruptos, ditatoriais e repressivos e aumento dos preços da comida é comum à maioria das pessoas na região. Apesar do governo Tunisiano ter fechado jornais da opsição e prendido e torturado jornalistas que ousaram cobrir a luta, a cobertura ainda está passando através do Twitter (siga #sidibouzid), apesar do Facebook ter se dobrado para ajudar o regime de bem Ali (e seus aliados da CIA) retirando as páginas de qualquer jornalista ou Tunisiano comum cobrindo a história.


A intifada ainda está acontecendo, e ontem ela alcançou os subúrbios da capital Tunis, e tropas foram utilizadas nas ruas pela primeira vez. Bem Ali ostensivamente tentou dar sinais de mudança demitindo seu ministro do interior e prometendo que ele irá começar um programa para criar 300.000 empregos nos próximos dois anos. Mas membros de sua família foram vistos fugindo do país.
Vitória e liberdade para os trabalhadores Tunisianos! Abaixo a ditadura de Ben Ali!

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Que espetáculo de vida!

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domingo, 2 de janeiro de 2011

O real significado do comunismo - por Luther Blisset

 Prelúdio
 
Escrevi um texto, assim meio espontâneo.

I.

O comunismo foi historicamente confundido com as sociedades de capitalismo de Estado do leste europeu e adjacências. Tais formações foram interpretadas tanto por liberais quanto por esquerdistas, como sendo o auge do marxismo e teriam a ver, segundo a mesma interpretação, com a realização prática da teoria marxista. O significado do comunismo acabou sendo absorvido por tais regimes, que se arrogavam a cada dia de sua existência como sendo a única e possível realidade do socialismo.

II.

O objetivo deste artigo não é fortalecer o cinismo dos capachos do capitalismo globalizado; trata-se, antes, de reverter esta confusão e de esclarecer de uma vez por todas a natureza e o conteúdo do comunismo.

III.

As formações do “socialismo real” nada tinham a ver com o comunismo. Na verdade, se aproximavam mais de um capitalismo de Estado do que de qualquer outra coisa. Primeiro, pelo fato que o comunismo pressupõe a não-existência do Estado, ao passo que tais sociedades eram centradas na figura do Estado. Segundo, porque o comunismo não é um capitalismo “melhorado”, onde os operários se apropriam da “mais-valia” que produzem para proveito próprio; o comunismo não é a socialização do capital com uma posterior generalização do status de trabalhador, mas a extinção do capital e do trabalho. 
 
V.

Devíamos nos perguntar, em primeiro lugar: o que define o capitalismo? Afinal de contas, o capitalismo não se define apenas pela oposição entre “proletariado” e “burguesia”, tampouco pela “propriedade privada dos meios de produção”. Na verdade, este se diferencia mais pelo fato de que os meios de produção não são acionados tendo em vista a satisfação de necessidades, mas o lucro em dinheiro, a valorização do capital.

O capital não é o instrumento de produção por si só, menos ainda o trabalho acumulado. Do contrário, poderíamos definir as formigas como sendo capitalistas. O capital é, antes de tudo, uma relação de produção. O que significa isso? Significa que por meio do processo de “metabolismo do homem com a natureza”, as pessoas estabelecem determinadas relações entre si ou formas de se relacionarem mutuamente por mediação das forças produtivas. Mas o capital não é um princípio restrito à “economia”; antes, trata-se de todo um modo de produção e de reprodução da sociedade, de uma relação social total, que diz respeito a todo o conjunto das relações sociais humanas. Assim, o capital é uma relação social que, como resultado, gera a submissão do trabalho vivo ao trabalho morto, do fazer ao feito, do fazer vivo ao fazer objetivado. Trata-se da subordinação do agir humano em geral a um fim estrangeiro, que é estranho ao ator: o fim em si mesmo da acumulação capitalista.

V.

Quando o capital domina no seio da atividade produtiva, surge uma outra esfera, aparentemente oposta, denominada “circulação”. É por onde circulam as mercadorias, pelo viés de onde se realiza o valor ou o mais-valor (“mais-valia”) disposto no ato produtivo. Sobretudo, é o espaço onde as relações sociais entre as pessoas tomam a aparência fetichista de uma relação social entre coisas (entre o meu dinheiro e a sua mercadoria e vice-versa). As relações entre as pessoas e suas atividades ficam condicionadas a ser um mero meio de realizar o “trabalho morto” representado nas mercadorias.  
 
VI.

Partindo de tal análise fundamentalmente crítica da natureza do capital, poderíamos definir o comunismo como sendo a supressão das relações mercantis e da produção de mercadorias, para que o controle dos homens sobre o sentido e o produto de suas atividades seja enfim realizado.

VII.

O comunismo não tem nada a ver com o estabelecimento da “igualdade” entre os indivíduos. Não faz parte de nossos sonhos um tal mundo onde todos comam da mesma comida, compartilhem das mesmas vestes e durmam em lares idênticos. Tais fantasias são a antítese do comunismo!

Menos ainda queremos uma sociedade onde todos ganhem o mesmo salário, sem distinção. O comunismo não é igualdade de salários! Isto seria equivalente à generalização da privação. Antes, o comunismo exige que os indivíduos possam exercer suas diferenças e desenvolver livremente suas potencialidades físicas e intelectuais. No capitalismo, ao contrário, todas as pessoas foram embutidas numa mesma fôrma, independente de seu conteúdo em particular. Em referência ao mercado de trabalho, são todas “mão de obra”, mercadoria força de trabalho; em referência ao Estado, todos contam como sujeitos-voto.

VIII.

As sociedades do leste europeu, bem como Cuba e outros países ditos “socialistas”, não passavam de sociedades de “mercado planificado”. De fato, de acordo com a abordagem de Kurz em “O Colapso da Modernização”, poder-se-ia dizer que os bolcheviques não suprimiram o capitalismo em Rússia, apenas o fizeram introduzir tardiamente. Uma “modernização retardatária” nos moldes do absolutismo.  

IX.
 
Por fim, seria importante ressaltar o caráter dialético da concepção de “comunismo” em Marx. Em “A Ideologia Alemã”, Marx diz em termos claros que:

“Para nós, o comunismo não é um estado que deva ser implantado, nem um ideal a que a realidade deva obedecer. Chamamos comunismo ao movimento real que suprime com o atual estado de coisas”;

Quer-se, desta forma, focar o comunismo não enquanto um “ideal” distante, mas como um elemento presente na própria realidade do capitalismo, como um elo vivo entre o presente e o futuro. O capitalismo não “é”, simplesmente; ele é e existe em constante tensão com aquilo que ele não é. As formas burguesas das relações sociais não estão pronta e devidamente acabadas. Elas não foram estabelecidas num passado longínquo, mas estão sendo estabelecidas, quebradas e re-estabelecidas a todo tempo. Como explica Holloway, as formas burguesas são formações, processos de formação das relações sociais. A forma-Estado, a forma-mercadoria, a forma-capital e assim por diante, são formas maleáveis. Felizmente, não existe um capitalismo “puro” e “total”. No próprio cotidiano das “pessoas comuns”, a crítica do valor se engendra enquanto expressão de uma desarmônica relação entre as necessidades humanas e a economia. À tendência de “ressolidarização” e de reconstituição da comunidade, denominamos comunismo.  

X.

O comunismo é o movimento que age no sentido de suprimir a sujeição do presente ao passado, do trabalho vivo ao trabalho morto, e nesse desenrolar de coisas, tende a extinguir a oposição de classes no seio da sociedade.

Uma vez suprimida a propriedade privada, a oposição entre o “público” e o “privado” e a cisão entre o interesse geral e o interesse particular desaparece. O Estado desmorona como expressão dessa cisão, não para que seja suplantado por uma “democracia direta”, pois a democracia pressupõe a cisão de interesses. Ademais, no comunismo não há uma esfera separada denominada “política” em oposição à uma esfera “econômica”. A vida social opera por meio de um conjunto de relações sociais que não se excluem mutuamente. Enfim, deslumbra-se a comunidade humana.

- FIM -

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