terça-feira, 4 de maio de 2010

O Grande Jogo da Guerra Civil

regra no. 1

até próximo aviso, todos os seus direitos estão suspensos. Naturalmente, você deve manter a ilusão de que ainda tem alguns por um tempinho. Desse modo, nós podemos violá-los um a um, caso a caso.

regra no. 2

Seja legal. Não mencione leis, a constituição, ou qualquer uma das elucubrações de outra era para nós de agora em diante. Algum tempo atrás, como você há de ter percebido, nós aprovamos certas leis que nos colocam acima da lei, e do resto da assim chamada “constituição”.

regra no. 3

Você é fraco, isolado, estúpido, maltratado. Somos numerosos, organizados, fortes e esclarecidos. Alguns podem até dizer que somos uma máfia; é mentira – nós somos A máfia, a que ganhou de todas as outras. Apenas nós podemos te proteger do caos do mundo. E é por isso que nos agrada tanto fazer com que você pense que é fraco, que você acredite que está “inseguro”. É o que faz o nosso esquema lucrativo.

regra no. 4

Para você, o jogo consistirá em fugir, ou pelo menos tentar. Por fugir nós queremos dizer: ir além do seu estado de dependência. Por agora, é verdade, você depende de nós em todos os aspectos da sua vida. Você come o que produzimos, respira o que polúimos, você está indefeso ante o primeiro problema dentário e acima de tudo você não pode fazer nada contra a soberania de nossas forças policiais, às quais demos poderes de alcance total tanto em termos de discrição quanto de ação.

regra no. 5

Você nunca vai conseguir escapar sozinho. Consequentemente, você vai ter começar construindo a necessária solidariedade. Para tornar o jogo um pouco mais difícil, nós liquidamos todas as formas de sociabilidade autônoma. Deixamos apenas uma coisa sobreviver: o trabalho; ou seja, a sociabilidade controlada. É disso que você vai ter que fugir, por meio do roubo, da amizade, da sabotagem e da auto-organização. Ah, a propósito: todos os meios de escapar foram tornados crimes.

regra no. 6

Nós o diremos de novo e de novo: os criminosos são nossos inimigos. Mas você deve tirar disso o seguinte: todos os nossos inimigos são criminosos. Como fugitivos em potencial, cada um de vocês é também um criminoso em potencial. Por isso, é uma coisa boa que mantenhamos nossas listas dos números para os quais vocês ligam com seus telefones, e que os seus celulares nos permitam localizá-los a qualquer momento, e que o seu cartão de crédito nos permita conhecer os seus hábitos tão facilmente.

regra número 7

Nesse pequeno jogo nosso, qualquer um que escape de sua isolação serão os “criminosos”. Quanto a aqueles que tem a ousadia de reclamar dessa situação, nós os chamaremos de “terroristas”. Nos últimos se pode atirar para matar em qualquer momento.

regra no. 8

Sabemos muito bem que a vida em nosso sociedade contém quase tanta alegria quanto uma viagem num trem suburbano; que o capitalismo tem até agora produzido, em matéria de riqueza, nada além da desolação universal; que não restam argumentos para defender nossa “ordem” decadente além das granadas de efeito moral de nossa polícia. Mas o que você esperava, a vida é assim! Nós te desarmamos mentalmente e fisicamente, e nós temos o monopólio sobre o que proibimos a você; a violência, a conspiração, o levante. E afinal de contas, francamente, o que você faria no nosso lugar?

regra número 9

Você vai conhecer a prisão.

regra número 10

Não há mais regras. Todos as agressões estão permitidas.

Assinado,

SEU GOVERNO

Texto escrito pelo grupo Tiqun e traduzido por L.M. em Maio de 2010. A discussão desse texto ainda está por ser feita.

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Último Aviso Ao Partido Imaginário Sobre O Espaço Público

Artigo Primeiro

O espaço público é feito para a troca a circulação de mercadorias. Como todas as outras mercadorias, as pessoas podem se mover livremente dentro dele.

Artigo 2

Espaço público é espaço que pertence a ninguém. Aquilo que pertence a ninguém pertence ao Estado. O Estado outorga à semiocracia mercadológica a ocupação desse espaço.

Artigo 3

Escritórios são feitos para se trabalhar. A praia é feita para se bronzear. Aqueles que desejam se entreter tem espaços de lazer, discotecas e outros parques de diversão feitos para tais propósitos. Nas bibliotecas, estão os livros. Nos asilos ficam os velhos. Nas casas estão as famílias. A vida é feita de momentos destacáveis. Cada momento em seu devido lugar. Tudo em ordem. Sem reclamações.

Artigo 3 bis

A desordem também tem a sua função especial. Ela encaixa de volta no Todo, no lugar pré-estabelecido para eventos imprevistos. Para o bem estar de todos, os cidadãos são convidados a entrar no caminho público durante festivais organizados para a sua atenção, em intervalos regulares, por equipes de serviço sob o comando do Ministério do Interior e do Ministério da Cultura. Nossos agentes de ambientação estão lá para serví-los. E você poderia ser legal com eles, você sabe, ainda que esteja sob domínio deles; isso não está proibido!

Artigo 4

Será designado a cada criança um respectivo adulto-em-chefe. Esse adulto é responsável ante a lei pelo comportamento da criança atribuída a ele ou ela. Devido ao treinamenento psico-social ainda incompleto, e no interesse do seu apropriado desenvolvimento, as crianças não hão de brincar no espaço público sem a vigilância de seus respectivos adultos-em-chefe. De qualquer modo, as crianças são classificadas em dois grupos: os hiperativos, que receberão ritalim, e os hipoativos, que receberão prozac.

Artigo 5

No interesse de preservar a paisagem e respeitar o meio ambiente social, os corpos que não se conformam às normas estéticas/sanitárias dominantes, como publicadas diariamente na imprensa nacional, irão por favor abster-se de circular em áreas públicas entre as 9 horas da manhã e 8:30 da noite. Durante esse período, no entanto, pedintes serão tolerados durante as horas de maior tráfego, onde eles participarão da edificação comum de todos pelo exemplo repulsivo que constituem.

Artigo 6

O propósito da vida é a felicidade. A felicidade é um dado objetivo mensurável em quantidades exatas. Hoje em dia todo mundo sabe que onde há transparência, há felicidade; aqueles que não buscam se exibir só estão tentando se esconder, e tudo que tenta se esconder deve ser considerado suspeito. Consequentemente, é o dever do Biopoder intervir e ajudar a fazer com que toda a opacidade em nossas vidas desapareça. O biopoder te quer feliz. Se necessário, ele vai querer apesar de você.

Artigo 7

Para a segurança de todos, o espaço público deve ser mantido inteiramente sob vigilância. Onde o controle ainda é imperfeito, as massas estão convidadas a por favor guardar para elas mesmas todo comportamento ofensivo à dignidade humana. Todas as reuniões anônimas e todo comportamento fora do normal devem ser informados à patrulha da Ação de Vigilância Preventiva mais próxima. Denunciar agentes do Partido Imaginário em nosso meio é o dever de todos os cidadãos; faça isso pelo seu próprio bem e pelo bem geral.

Artigo 8

O espaço público é um espaço neutro, o quer quer dizer que, nele, toda manifestação de uma existência singular é um ataque na integridade das outras. Todos os recursos disponíveis serão utilizados - o urbanismo, cenários apropriados, a monitoração de controle contínuo (CCM), etc. – para fazer com que sejam impossíveis tais demonstrações e o incômodo intolerável que elas causam aos nossos co-cidadãos.

Artigo 9

Agradecemos a todos que contribuíram com seu bom comportamento para que esses princípios não precisassem ser ditos.

Artigo 10

NADA JAMAIS HÁ DE ACONTECER NOVAMENTE.

Traduzido por L.M. em Maio de 2010. Fonte: Tiqun

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Receita Para Fazer Um Herói

Tome-se um homem,
feito de nada, como nós,
E em tamanho natural,
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto

Reinaldo Ferreira, 1991

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domingo, 18 de abril de 2010

Entre a revolução na poesia e a poesia da revolução


 Um trechinho inspirado e desviado por minha autoria sobre um cara que muito me interessa. Ele pode ter errado muito, mas acertou no essencial..

" O nome “Marighella” não indica somente uma pessoa, ele indica uma possibilidade existencial, uma maneira de estar-no-mundo, um poder de afirmação. Se ele foi tão perseguido, difamado e se tentaram jogá-lo debaixo do tapete da história como se viu é em parte por causa da teimosia com que a sua poesia, o seu exemplo, ainda tem o poder de inspirar as novas gerações. A prisão, o assassinato, o esquecimento e a transformação do homem em mito são alguns dos meios mais eficientes de tentar isolar dos outros seres humanos aquelas existências que são ardentes demais.
 
É essa possibilidade, esse fogo que tão facilmente se alastra, que eles tentaram matar quando mataram o corpo do nosso querido amigo e que eles tentaram esconder ou neutralizar com as suas histórias oficiais e mitificações. A possibilidade de uma vida autêntica, livre e consequentemente em guerra permanente contra a opressão. A possibilidade de que haja vida, enfim, se admitimos que o conformismo é a morte.

Marighella não teve tempo pra ter medo. E nós, será que temos? "

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Malvadinhos


Uma tirinha sumamente curiosa!

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sábado, 10 de abril de 2010

MAIPMC


Tantas coisas em promoção...um celular, talvez uma vaga no mercado de trabalho, quem sabe uma na universidade. Para os mais esforçados e servis, uma chance de ser promovido: ser aluno modelo, passar no vestibular, ser empregado do mês, filho ideal, ter uma imagem respeitável, um carro admirável...se ficamos tristes, nos “oferecem” antidepressivos e a conformidade. Se revoltados, o consolo das religiões e dos partidos políticos. Se não nos adaptamos, a polícia e o hospício estão à disposição, pra não falar das escolas-prisões. Enfim, todo o necessário para uma sobrevivência adequada da espécie!
Acontece que nem todos cabemos na oferta. O preço (nossa humanidade) pode ser barato para alguns e por algum tempo – para nós é inaceitável. A adequação pode ser melhor do que a morte, mas essas não são as únicas opções: são apenas as opções com que esse mundo nos “brinda”. Talvez queiramos escolher em nosso nome. Estabelecer a nossa oferta.
Talvez, nós estejamos procurando algo diferente da morte lenta que o seu poder nos impõe.Talvez queiramos respirar, mas o ar polúido pela máquina do capital nos sufoca. Talvez queiramos ser livres e não aceitamos mais a falsa liberdade de uma gaiola maior. Talvez queiramos criar livremente, mas a sua escola nos esteriliza.
Chegamos à conclusão de que a sua oferta é a morte da nossa procura. Que não existe dignidade na escravidão, por mais pacífica que seja; que não pode haver autêntica felicidade enquanto estivermos cercados por desolação...que o peso das coisas só nos deixa mexer sem sair do lugar.
Nossa questão não é se vivemos mais ou menos pobremente, mas que a vida nos escapa. Ela nos é tomada. Resolvemos retomá-la. Cansamos de ficar isolados e impotentes: buscamos aqueles com anseios semelhantes para estabelecer novas relações. Construir a ruína desse mundo que arruína nossas vidas. Buscar os meios da nossa libertação.
A conclusão disso não se dará em palavras, mas sim em nossa vidas.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Entrevista a Raoul Vaneigem

20 11 2009

▴ Chris Marker’s Gay-Lussac (Paris, May 1968)
Image courtesy Peter Blum, New York.

Excertos da entrevista de Hans Ulrich Obrist a Raoul Vaneigem em Agosto deste ano para a revista e-flux.

Hans Ulrich Obrist: Acabei de visitar Edouard Glissant [escritor, poeta, romancista, teatrólogo e ensaísta francês] e Patrick Chamoiseau [escritor francês], que escreveram um apelo a Barack Obama. Qual seria o teu apelo ou conselho a Obama?

Raoul Vaneigem: Recuso-me a cultivar qualquer tipo de relação com pessoas de poder. Concordo com os Zapatistas de Chiapas que não querem ter nada a ver nem com o Estado nem com os seus chefes, as máfias multinacionais. Eu proponho a desobediência civil de forma que as comunidades locais possam formar, coordenar e começar a auto-produzir poder natural, uma forma de cultivo mais natural e serviços públicos finalmente libertos dos esquemas do governo quer seja de direita ou de esquerda. Por outro lado, dou as boas-vindas ao apelo de Chamoiseau, Glissant e os seus amigos para a criação de uma existência em que a poesia de uma vida redescoberta coloque um fim ao estrangulamento mortal da mercadoria.

[...]

Hans Ulrich Obrist: A Internacional Situacionista definiu o situacionista como alguém que se compromete a construir situações. Que eram essas situações para ti, concretamente? Como definirias o projecto situacionista em 2009?

Raoul Vaneigem: Pelo seu próprio estilo de vida e de pensamento, o nosso grupo estava já a esboçar uma situação, como um primeiro desembarque em pleno território inimigo. A metáfora militar é questionável, mas transmite a nossa vontade em libertar a vida diária do controlo e estrangulamento de uma economia baseada na exploração lucrativa do homem. Nós formamos um grupo-em-risco que estava consciente da hostilidade do mundo dominante, da necessidade de ruptura radical, e do perigo de ceder à paranóia típica das mentes sob cerco. Mostrando os seus limites e as suas fraquezas, a experiência situacionista também pode ser vista como uma meditação crítica sobre o novo tipo de sociedade esboçada pela Comuna de Paris, o movimento Makhnovista e a República de Conselhos dizimada por Lenine e por Trotsky, pelas comunidades libertárias em Espanha mais tarde esmagadas pelo Partido Comunista. O projecto situacionista não é acerca do que acontece assim que a sociedade de consumo é rejeitada e uma sociedade humana genuína emerge. Ao invés, ele esclarece agora como a vida pode suplantar a sobrevivência, o comportamento predatório, o poder, o comércio e o reflexo-de-morte.

[...]

Hans Ulrich Obrist: Escreveste muito sobre a vida, não sobre a sobrevivência. Qual é a diferença?

Raoul Vaneigem: Sobrevivência é vida orçamentada. O sistema de exploração da natureza e do homem, a partir do Neolítico Médio com a agricultura intensiva, causou uma involução em que a criatividade – uma qualidade específica dos seres humanos – foi suplantada pelo trabalho, pela produção de um poder avarento. A vida criativa, como se começou a desenvolver durante o Paleolítico, declinou e deu lugar a uma luta brutal pela subsistência. A partir de então, a predação, que define o comportamento animal, tornou-se o gerador de todos os mecanismos econômicos.

[...]

Hans Ulrich Obrist: No seu livro «Making Globalization Work», Joseph Stiglitz defende uma reorganização da globalização no sentido de trazer maior justiça, a fim de diminuir os desequilíbrios mundiais. O que achas da globalização? Como é que nos podemos livrar do lucro como motivação e em vez disso procurar o bem-estar? Como é que nos livramos do imperativo do crescimento?

Raoul Vaneigem: A moralização do lucro é uma ilusão e uma fraude. Tem de haver uma ruptura definitiva com um sistema económico que tem sistematicamente propagado a ruína e a destruição ao mesmo tempo que pretende, por entre a miséria generalizada, produzir um hipotético bem-estar. As relações humanas devem substituir e terminar com as relações comerciais. A desobediência civil significa desrespeitar as decisões de um governo que defrauda os seus cidadãos para apoiar o desfalque do capitalismo financeiro. Para quê pagar impostos ao estado-banqueiro, impostos usados em vão para tentar tapar o ralo da corrupção, quando pelo contrário podemos direccioná-los para a auto-gestão de redes de energia livre em cada comunidade local? A democracia directa de conselhos auto-geridos tem todo o direito de ignorar os decretos da democracia parlamentar corrupta. A desobediência civil a um Estado que nos está a saquear é um direito. Cabe-nos aproveitar esta mudança histórica para criar comunidades onde o desejo pela vida supere a tirania do dinheiro e do poder. Não precisamos de nos preocupar nem com a dívida pública, que encobre uma enorme fraude no interesse público, nem com o artifício do lucro a que eles chamam de “crescimento.” De agora em diante, o objetivo das comunidades locais deve ser o de produzir para si próprias e para si próprias todos os bens de valor social, atendendo às necessidades de todos – necessidades autênticas, isto é, não as necessidades pré-fabricados pela propaganda consumista.

Hans Ulrich Obrist: Edouard Glissant distingue entre globalidade e globalização. A globalização elimina as diferenças e homogeneíza, enquanto globalidade é um diálogo global que produz diferenças. O que achas da sua noção de globalidade?

Raoul Vaneigem: Para mim, deve significar agir localmente e globalmente através de uma federação de comunidades em que a nossa democracia parlamentar desviadora de fundos e corrupta é tornada obsoleta pela democracia direta. Conselhos locais serão criados para tomar medidas que favoreçam o meio ambiente e a vida quotidiana de todos. Os situacionistas chamaram a isto “criar situações que excluam qualquer retrocesso.”

[...]

Hans Ulrich Obrist: No seu livro «Utopistics», Immanuel Wallerstein afirma que o nosso sistema mundial está a passar por uma crise estrutural. Ele prevê que serão necessários mais vinte a cinquenta anos para um sistema mais democrático e igualitário substituir este. Ele acredita que o futuro pertence a instituições «desmercantilizadas» e livres de custo (segundo o modelo, digamos, das bibliotecas públicas). Portanto, devemos opor-nos à mercantilização da água e do ar. Qual é a tua opinião?

Raoul Vaneigem: Não sei quanto tempo levará a transformação actual (esperemos que não muito, pois gostaria de a presenciar). Mas não tenho dúvidas que esta nova aliança com as forças da vida e da natureza disseminará igualdade e gratuidade. Devemos ultrapassar a nossa indignação natural pela apropriação lucrativa da nossa água, ar, solo, meio ambiente, plantas e animais. Devemos criar colectivos capazes de gerir os recursos naturais em benefício dos interesses humanos, não dos interesses do mercado. Este processo de reapropriação que eu prevejo tem um nome: auto-gestão, uma experiência tentada muitas vezes em contextos históricos hostis. Neste altura, dada a implosão da sociedade de consumo, parece ser a única solução tanto do ponto de vista individual como social.

[...]

Hans Ulrich Obrist: Poderias falar sobre o princípio da gratuitidade (estou extremamente interessado nisso; como curador de museu sempre acreditei que os museus devem ser livres – Arte para Todos, como Gilbert e George o colocam).

Raoul Vaneigem: Gratuitidade é a única arma capaz de despedaçar a poderosa máquina de auto-destruição posta em movimento pela sociedade de consumo, cuja implosão está ainda a libertar, como um gás mortal, mentalidade de sovina, cupidez, ganho financeiro, lucro e predação. Museus e cultura devem ser livres, concerteza, mas também o deviam ser os serviços públicos, actualmente presos aos esquemas das multinacionais e estados. Comboios gratuitos, autocarros, metros, cuidados de saúde, escolas livres, água livre, ar, electricidade, energia livre, tudo através de redes alternativas a serem criadas. À medida que a gratuitidade se espalha, novas redes de solidariedade erradicam o estrangulamento da mercadoria. Isto porque a vida é uma dádiva gratuita, uma criação contínua que a vil especulação do mercado nos priva.

#mescalero

Fonte: http://libertario08.wordpress.com

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